Há um exercício que quase ninguém faz e que costuma render mais do que cancelar a Netflix ou mudar de operadora: olhar para as apólices de seguro que já tem e perguntar, apólice a apólice, se aquela cobertura específica não está noutro sítio qualquer, paga em duplicado, há anos.
Como as coberturas se acumulam sem darmos conta
Ninguém contrata seis seguros ao mesmo tempo a pensar em sobreposições. Contrata o crédito habitação e aceita o seguro de vida associado porque o banco insiste. Mais tarde troca de cartão bancário e o novo vem com seguro de viagem incluído, que nem sabia que existia. Entretanto o seguro do carro já trazia assistência em viagem desde o primeiro dia. Cada decisão fez sentido isolada. É a soma que não faz.
O problema agrava-se porque as apólices são renovadas automaticamente, ano após ano, sem que ninguém volte a ler as condições gerais. Quem contratou um multirriscos habitação em 2019 muito provavelmente nunca mais abriu o documento. E é exactamente aí, nesse desconhecimento acumulado, que vivem as coberturas repetidas — não porque alguém decidiu pagar a mais de propósito, mas porque ninguém teve tempo, ou paciência, para juntar cinco contratos numa mesa e compará-los.
O seguro de vida do crédito habitação
Este é o caso mais comum e o mais caro.
Quando contrata um crédito habitação, o banco pede um seguro de vida associado ao valor em dívida — e, na prática, empurra para o seguro da própria instituição financeira, que costuma custar bastante mais do que um seguro de vida equivalente contratado à parte. A lei portuguesa é clara: o banco pode exigir que exista um seguro de vida associado ao empréstimo, mas não pode obrigar a que seja o seguro dele. Pode apresentar uma apólice externa, desde que cubra o capital em dívida e as garantias mínimas exigidas — normalmente morte e invalidez absoluta e definitiva.
Aqui está a duplicação mais frequente: quem já tem um seguro de vida anterior — feito, por exemplo, quando trabalhava por conta própria ou quando teve o primeiro filho — muitas vezes mantém esse seguro antigo e aceita também o seguro de vida do banco, sem verificar se o capital seguro do primeiro já cobre a exigência do segundo. Resultado: duas apólices, dois prémios mensais, para cobrir, no fundo, o mesmo risco. Corretores de seguros independentes, como a MDS ou a Marsh, costumam confirmar que este é o pedido mais comum quando um cliente lhes pede uma auditoria à carteira de seguros pessoal.
Vale a pena pedir ao banco, por escrito, o capital mínimo exigido e comparar esse número com o capital que já tem seguro noutra apólice. Se o seu seguro de vida antigo já cobre, por exemplo, 150 000 euros e o crédito em dívida é de 120 000 euros, pode simplesmente apresentar essa apólice ao banco em vez de contratar uma segunda. Poupa, em média, entre cinquenta e cem euros por mês, dependendo da idade e do capital em causa.
Cartões de crédito com seguro de viagem incluído
A maioria dos cartões de crédito premium — Millennium bcp Gold, Santander Select, Novobanco Único, entre outros — inclui seguro de viagem, assistência em viagem e, nalguns casos, cancelamento de viagem, desde que a viagem seja paga com esse cartão. Isto é razoavelmente conhecido. O que quase ninguém verifica é se essa cobertura já não está incluída, em paralelo, no seguro automóvel ou num seguro de saúde com componente internacional.
- Assistência em viagem: normalmente já vem no seguro automóvel obrigatório, mesmo dentro de Portugal e, em muitos casos, na Europa.
- Cancelamento de viagem: raro fora dos cartões premium, mas vale confirmar se contratou algum seguro específico ao reservar um voo ou um pacote turístico.
- Cuidados médicos no estrangeiro, que é provavelmente a cobertura mais frequentemente paga a triplicar — pelo cartão, pelo seguro de saúde e pelo seguro específico de viagem comprado no momento da reserva.
Não vale a pena manter as três. Escolha uma, normalmente a do cartão se já paga a anuidade de qualquer forma, e cancele as restantes. Ligue à seguradora de saúde e pergunte especificamente pelo artigo do contrato que trata de cuidados no estrangeiro — muitas vezes está lá, escondido num anexo que ninguém lê, com um limite de capital que pode ser suficiente para a maior parte das viagens dentro da União Europeia.
Multirriscos habitação: o recheio contado duas vezes
Quando muda de seguradora, é comum o valor do recheio seguro subir sozinho, porque o mediador aplica um valor "de segurança" mais alto sem perguntar. Se, entretanto, também tem uma cobertura de bens pessoais associada ao cartão de crédito, ou um seguro específico para equipamento eletrónico contratado na loja onde comprou o computador, está a pagar prémios sobre o mesmo bem em duas apólices diferentes.
Vale confirmar isto com atenção antes de cancelar: se o multirriscos cobre o recheio até um valor global (por exemplo, 30 000 euros) e o seguro da loja cobre apenas um equipamento específico com uma franquia mais baixa, pode fazer sentido manter os dois — não são exatamente a mesma cobertura, e o seguro específico costuma responder mais depressa em caso de avaria isolada. A regra "cancele tudo o que se repete" tem esta exceção.
Há ainda um terceiro sítio onde o recheio aparece contado: o seguro de responsabilidade civil do condomínio, que em alguns prédios cobre danos causados a terceiros dentro do edifício e que se sobrepõe parcialmente à responsabilidade civil incluída no seu próprio multirriscos. Peça ao administrador do condomínio uma cópia da apólice — é gratuita e demora cinco minutos a pedir por email.
O clube automóvel e o reboque pago duas vezes
Quem é sócio do Automóvel Clube de Portugal, ou de clubes semelhantes, paga uma quota anual que inclui assistência em viagem com reboque em caso de avaria — e esquece-se, frequentemente, que o seguro automóvel obrigatório já inclui exatamente a mesma cobertura desde o primeiro dia de contrato, sem custo adicional relevante. A diferença está sobretudo no raio de cobertura e no tempo de resposta, mas para a maioria dos condutores que circula dentro de Portugal e da Europa Ocidental, a sobreposição é quase total.
Antes de renovar a quota do clube por rotina, ligue à seguradora do carro e peça o detalhe da cobertura de assistência em viagem: quilómetros de raio, se inclui viatura de substituição, se cobre avarias mecânicas ou só acidentes. Se a resposta cobrir o essencial, cancelar a quota do clube automóvel poupa entre sessenta e cento e vinte euros por ano, dependendo do plano escolhido — e não perde nada que já não tivesse.
Quando compensa juntar tudo numa só seguradora
Há um lado positivo nesta história de duplicações: a maior parte das seguradoras portuguesas, da Fidelidade à Ageas Seguros, oferece descontos de dez a vinte por cento quando junta várias apólices — automóvel, casa e vida — sob o mesmo contrato multirriscos. Isto não elimina sozinho as duplicações identificadas atrás, mas facilita bastante o processo de auditoria seguinte, porque fica tudo documentado no mesmo sítio, com o mesmo gestor de conta, e sem ter de telefonar para três empresas diferentes sempre que quer confirmar um capital seguro.
Não vale a pena juntar tudo só pelo desconto se isso significar ficar preso a uma seguradora com um serviço de sinistros mau — peça sempre referências a amigos ou familiares que já tenham acionado um sinistro com essa companhia antes de assinar. Um desconto de quinze por cento não compensa três meses de atraso numa reparação depois de um acidente.
Como fazer a auditoria em vinte minutos
Reúna as apólices que tem atualmente — seguro automóvel, seguro de vida, multirriscos habitação, seguro de saúde, cartões de crédito com seguros associados — e faça uma tabela simples com três colunas: risco coberto, valor do capital seguro, prémio anual. Depois, ordene por risco. Assim que dois seguros diferentes aparecerem a cobrir exatamente o mesmo risco para a mesma pessoa, tem uma duplicação.
A maior parte das pessoas encontra pelo menos uma sobreposição nesta tabela. Normalmente é o seguro de vida do crédito, o cancelamento de viagem, ou a assistência em viagem. Cancele a apólice mais cara das duas, nunca a mais barata só porque é mais fácil de tratar — confirme primeiro qual delas cobre mais e custa menos por unidade de capital seguro. Guarde sempre uma cópia do email de cancelamento e a confirmação da seguradora, porque disputas sobre datas de cancelamento são o motivo mais comum de reclamação junto da ASF, a Autoridade de Supervisão de Seguros e Fundos de Pensões.
O que não deve cancelar
Há quem, ao fazer esta auditoria, entre em modo de corte e cancele seguros que não são, de facto, duplicados. O seguro de acidentes pessoais, por exemplo, cobre uma coisa muito diferente do seguro de vida: paga por incapacidade e invalidez decorrente de acidente, mesmo sem morte, e o seguro de vida tradicional normalmente não cobre isso da mesma forma. Cancelar às cegas, só porque parece "mais um seguro", costuma sair caro mais tarde.
O mesmo se aplica ao seguro de proteção de pagamentos associado a alguns cartões de crédito, que cobre as prestações mínimas em caso de desemprego ou incapacidade temporária — não substitui o seguro de vida nem o seguro de saúde, e cancelar sem perceber isso pode deixá-lo exposto precisamente no momento em que mais precisaria dessa rede de segurança.
Faça a tabela este fim de semana, ligue à seguradora com os números na mão e peça o cancelamento por escrito — nunca por telefone sem confirmação. É provavelmente a hora mais bem paga que vai gastar em finanças pessoais este mês.