A mala já está meio feita, os bilhetes comprados e o apartamento no Algarve reservado desde março, mas há uma pergunta que a maioria das famílias só faz depois de regressar: quanto custou isto tudo, ao certo? Julho é o mês em que Portugal esvazia as cidades e enche as estradas, e é também o mês em que o cartão de crédito começa a acumular movimentos que só se tornam visíveis no extrato de agosto.
Comboio, portagens ou avião - a conta muda mais do que parece
Um bilhete de comboio da CP entre Lisboa e Faro custa entre 25 e 35 euros por pessoa, dependendo da antecedência e do tipo de serviço, e continua a ser a opção mais previsível para quem viaja para o sul. Quem prefere ir de carro tem de somar portagens, combustível e, cada vez mais, o estacionamento no destino - em Lagos ou em Albufeira, um lugar coberto durante a época alta pode facilmente ultrapassar os 10 euros por dia. Já para quem vai para os Açores ou para a Madeira, os voos internos costumam variar entre 60 e 150 euros por pessoa, e os preços sobem de forma bastante acentuada nas duas primeiras semanas de agosto, pelo que reservar em julho para viajar em agosto raramente compensa.
Vale a pena fazer uma coisa antes de reservar seja o que for: somar o custo da viagem de ida e volta ao custo do estacionamento no aeroporto, porque este último item é sistematicamente esquecido no orçamento inicial. No aeroporto de Lisboa, um lugar coberto para duas semanas ronda os 10 euros por dia se não reservar com antecedência, o que por si só pode ultrapassar o preço do próprio bilhete de avião para destinos mais próximos.
Onde a fatura das férias costuma disparar sem se dar por isso
- Refeições fora de casa, que em zonas turísticas como o Algarve ou Cascais custam facilmente 15 a 20 euros por pessoa só ao almoço
- Aluguer de guarda-sóis e espreguiçadeiras na praia, entre 10 e 15 euros por dia em muitas praias do sul
- Atividades para crianças - parques aquáticos, passeios de barco, aluguer de equipamento - que raramente entram no orçamento inicial e que, somadas ao longo de duas semanas, pesam mais do que o alojamento
- E há sempre aquele imprevisto: um pneu furado, uma visita inesperada às urgências, uma lavandaria de última hora porque a mala não tinha roupa suficiente
Há ainda uma categoria de despesa que quase ninguém apronta com antecedência, que são as compras de última hora antes de partir - protetor solar, repelente, um chapéu esquecido em casa há três verões, tudo comprado à pressa na véspera, muitas vezes num supermercado de estrada a preços bem mais altos do que numa loja habitual. Fazer essa lista com uma semana de antecedência, em vez de deixar para o dia da partida, evita comprar em pânico e a preços de recurso.
O cartão de crédito não é o inimigo - usado mal, é que estraga tudo
Usar o cartão de crédito para pagar as férias não é, por si só, um erro - é a forma mais prática de gerir despesas espalhadas por vários dias e vários países, sobretudo se o cartão tiver seguro de viagem incluído. O problema começa quando o saldo em dívida passa para o mês seguinte e começa a gerar juros, porque a maioria dos cartões de crédito em Portugal, sejam do Novobanco, da CGD ou de outros bancos, aplica TAEG na casa dos 16% ou mais quando não se paga a totalidade do extrato. Isso significa que umas férias de 1.500 euros pagas a prestações ao longo de seis meses podem acabar por custar bem mais do que o valor inicial, só em juros.
Evite, sempre que possível, deixar o pagamento do cartão em modo de "pagamento mínimo" - essa opção existe precisamente para tornar a dívida confortável a curto prazo e cara a longo prazo. Melhor é definir, antes mesmo de partir, uma data no calendário para pagar a totalidade do extrato assim que ele chegar, mesmo que isso signifique cortar noutra coisa em agosto.
E se as férias já estão marcadas e o dinheiro não chega?
Há quem pense que a única solução é cancelar tudo, mas raramente é essa a resposta certa quando já há reservas pagas e não reembolsáveis.
Faz mais sentido rever o orçamento das refeições e das atividades do que cancelar o alojamento já pago - trocar um jantar fora por uma refeição preparada no apartamento poupa facilmente 20 a 30 euros por dia para uma família de quatro pessoas, sem alterar o essencial da viagem. Cortar num dia de parque aquático ou reduzir o aluguer de equipamento de praia costuma doer bem menos do que se imagina antes de partir, e a diferença acaba por não se notar nas fotografias, só na conta bancária.
Seguro de viagem: o pormenor que só se lembra depois de precisar
Muitos cartões de crédito premium incluem seguro de viagem automático quando a viagem é paga com o próprio cartão, mas as condições variam bastante de banco para banco, e vale a pena confirmar o valor da franquia e o que fica realmente coberto antes de partir. Um seguro de viagem avulso, comprado à parte, custa normalmente entre 15 e 40 euros por pessoa para uma viagem de duas semanas dentro da Europa, e cobre despesas médicas, cancelamento e perda de bagagem. Para quem vai de carro dentro de Portugal, o seguro automóvel já inclui assistência em viagem na maioria das apólices, mas convém confirmar se cobre também reboque para fora da área habitual, algo que costuma ficar de fora das coberturas mais básicas.
O subsídio de férias já foi, mas ainda dá para reorganizar
Para quem recebe o subsídio de férias em duodécimos ao longo do ano, o mês de julho chega sem aquele reforço extra que os pais e avós ainda recordam com saudade, e isso obriga a um exercício diferente: olhar para o orçamento mensal normal e ver quanto é possível libertar sem comprometer as contas de agosto. Uma transferência automática de 50 ou 100 euros por mês para uma conta poupança dedicada às férias, feita já a partir de janeiro do ano seguinte, evita que julho seja sempre o mês do aperto.
Regresso a casa: a parte do orçamento que todos esquecem
Ninguém pensa no ar condicionado que ficou ligado durante a viagem, ou na fatura da eletricidade que chega em agosto mais alta do que o habitual por causa do calor acumulado em casa vazia. Reserve uma margem de 50 a 80 euros para essa conta extra e para as pequenas compras de reabastecimento que se acumulam sempre no primeiro fim de semana depois de regressar - o frigorífico vazio, o pão que acabou, o detergente que já não havia antes de partir.
Uma folha de cálculo simples vale mais do que boas intenções
Antes de partir, vale a pena abrir uma folha de cálculo qualquer, mesmo que seja no telemóvel, com três colunas: transporte, alojamento e refeições, e uma quarta chamada apenas "imprevistos", com um valor fixo já reservado à partida. Quem faz este exercício descobre quase sempre que o valor real da viagem fica entre 15 e 25 por cento acima da estimativa inicial, e é precisamente essa margem que costuma acabar no cartão de crédito sem ninguém dar por isso. Ir registando os gastos ao final de cada dia, mesmo que só demore dois minutos sentado à mesa do jantar, transforma o regresso a casa de uma surpresa desagradável numa confirmação do que já se esperava.