Quem tem revisão do crédito habitação marcada para setembro vai sentir a diferença logo na conta à ordem. A Euribor a seis meses, o indexante mais usado em Portugal nos empréstimos de taxa variável, está hoje, dia 7 de agosto de 2026, fixada em 2,717% — mais alta do que estava há um ano, depois de o Banco Central Europeu ter travado dois anos de cortes e subido as taxas diretoras em junho. A três meses, a Euribor está em 2,494%; a doze meses, em 2,930%. Nenhum destes números é dramático isoladamente, mas somados a um crédito de trinta anos fazem diferença real na prestação mensal.
A Euribor não parou de subir desde junho
O ponto de viragem foi a reunião do BCE de 11 de junho: pela primeira vez desde setembro de 2023, o Conselho subiu as três taxas diretoras em 0,25 pontos percentuais, colocando a facilidade permanente de depósito em 2,25%, as operações principais de refinanciamento em 2,40% e a facilidade permanente de cedência de liquidez em 2,65%. O BCE justificou a decisão com pressões inflacionistas ligadas à guerra no Médio Oriente, um argumento que soa estranho a quem só associava subidas de juro à inflação interna da zona euro. Em julho, o banco central manteve tudo inalterado — decisão já esperada pelos mercados — e a próxima reunião está marcada para 9 e 10 de setembro, em Berlim.
Vale sublinhar uma coisa que passa despercebida: a Euribor não segue o BCE de forma automática nem imediata. Reflete expectativas do mercado sobre onde as taxas vão estar nos próximos meses, e por isso já subiu antes da própria decisão de junho ter sido tomada. Se em setembro o BCE dececionar o mercado — subindo mais do que o esperado, ou sinalizando novas subidas por causa do conflito no Médio Oriente — é bem provável que a Euribor continue a escalar nas semanas seguintes, com o efeito a chegar às prestações com o desfasamento habitual de um a três meses.
Quanto custa mais um crédito de 150 mil euros
Os simuladores dos principais bancos e comparadores dão uma ideia concreta do impacto. Num crédito habitação de 150.000 euros, a 30 anos, com spread de 1% — hoje a maioria dos contratos tem spreads abaixo desse valor, depois de uma queda acumulada de cerca de 70% na última década — a prestação varia consoante o indexante escolhido: com Euribor a 3 meses ronda os 654 euros, com Euribor a 6 meses sobe para cerca de 681 euros, e com Euribor a 12 meses chega perto dos 698 euros. A diferença entre o prazo mais barato e o mais caro já passa dos 40 euros mensais, quase 500 euros por ano, só por causa do indexante escolhido na altura da contratação.
Comparar com o pico de 2023 ajuda a manter a perspetiva: nessa altura, a Euribor a seis meses chegou perto de 4,1%, quase o dobro do valor atual, e a mesma prestação de 150.000 euros era substancialmente mais pesada. Isto não torna a subida de 2026 inofensiva, mas explica por que razão o mercado de crédito habitação não está em pânico — está apenas mais atento.
Fixa, variável ou mista — o que faz sentido agora
Para quem vai contratar crédito novo, a taxa mista continua a ser a opção mais equilibrada neste momento: fixa nos primeiros anos, dá tempo para a inflação estabilizar e para o BCE definir um rumo mais claro depois de setembro. Evite fechar-se numa taxa fixa a 30 anos só porque a Euribor subiu esta semana — os bancos ajustam os spreads das fixas com a expectativa de juros futuros embutida, e nesta fase de incerteza essas propostas tendem a vir com uma margem generosa para o próprio banco.
Para quem já tem crédito variável contratado há vários anos, com spread baixo negociado num período de maior concorrência bancária, muda pouco a lógica: mudar para fixa agora, a meio da subida, costuma sair caro. A exceção é quem sente qualquer aperto no orçamento familiar com a prestação atual — nesse caso, vale a pena pedir ao banco uma simulação de alongamento de prazo antes de considerar mudar de indexante, porque estica o prazo sem mexer no spread já conquistado.
A lei já obriga o banco a mexer-se primeiro
Poucas famílias sabem disto. Desde a última grande subida de juros, existe um regime que obriga os bancos a identificar, por iniciativa própria, os clientes com crédito variável até 300.000 euros em dívida cuja taxa de esforço tenha chegado a 50%, ou a 36% depois de uma subida abrupta da prestação, e a propor-lhes uma renegociação — alargamento de prazo, período de carência ou consolidação de créditos. A regra tem um detalhe importante para quem tem casa própria e permanente: o banco não pode aproveitar essa renegociação para agravar o spread. Quem sentir a prestação a pesar mais do que há um ano não precisa de esperar que o banco contacte primeiro — pode pedir a simulação diretamente, e se o banco pedir comprovativos de rendimento para calcular a taxa de esforço, o cliente tem 10 dias para os entregar.
Mudar de banco voltou a ter um custo — mas nem sempre é o cliente a pagá-lo
Transferir o crédito habitação para outro banco continua a ser uma alternativa válida quando a proposta da concorrência compensa, mas desde 1 de janeiro de 2026 esse processo voltou a ter um preço: a comissão de reembolso antecipado, suspensa entre 2022 e o final de 2025, regressou ao limite de 0,5% do capital em dívida para contratos de taxa variável, depois de a suspensão excecional não ter sido renovada. Num crédito com 100.000 euros ainda por pagar, isso equivale a 500 euros — um valor que, na prática, muitos bancos de acolhimento absorvem total ou parcialmente para conquistar o cliente, por isso vale sempre a pena perguntar antes de desistir da mudança só por causa dessa comissão. O banco atual tem 10 dias úteis para enviar ao novo banco a informação sobre o valor em dívida, e só pode recusar a transferência se o cliente estiver em incumprimento.
O lado bom: a poupança finalmente rende mais
A subida de juros tem sempre dois lados, e o segundo costuma ficar esquecido nas notícias sobre crédito habitação. Com as taxas diretoras mais altas, os depósitos a prazo também melhoraram — ainda que com o atraso habitual, porque os bancos são sempre mais lentos a subir a remuneração da poupança do que a subir a taxa dos empréstimos. Segundo dados do Banco de Portugal referentes a abril de 2026, a taxa média dos novos depósitos a prazo até um ano estava em apenas 1,36% TANB, mas isso é a média do mercado — inclui contas antigas mal remuneradas e bancos que nem tentam competir.
As melhores ofertas em agosto de 2026 estão bem acima disso, e vale a pena olhar para casos concretos em vez de médias. A Trade Republic, que abriu sucursal em Portugal em julho de 2026 com IBAN português, paga 3,00% TANB a novos clientes sobre saldo até 50.000 euros, com o excedente remunerado à taxa de depósito do BCE — hoje 2,25%. O Banco CTT tem um depósito a prazo mais modesto mas mais acessível, a partir de 100 euros, com o prazo escolhido livremente entre um e doze meses e mobilização antecipada sempre permitida, ainda que com perda total dos juros acumulados. Não vale a pena deixar dinheiro parado numa conta à ordem ou num depósito antigo a render menos de 1% quando há alternativas seguras — cobertas pelo mesmo Fundo de Garantia de Depósitos — a render o triplo.
Compare sempre a TANB líquida, não só o número que aparece em destaque no anúncio. Muitas destas taxas altas aplicam-se apenas ao primeiro trimestre, ou só à parte do saldo abaixo de um teto como os 50.000 euros da Trade Republic ou os 5.000 euros de algumas contas poupança do Banco CTT, e depois caem para valores bem mais modestos assim que esse limite é ultrapassado.
Como aproveitar antes da reunião de setembro
Há uma pergunta que fica no ar sempre que se fala de depósitos a prazo: e se o dinheiro fizer falta antes do fim do prazo? Nesse caso, escolha um depósito com mobilização antecipada permitida, mesmo que isso signifique abdicar de meio ponto percentual — a liquidez vale mais do que a diferença de juros quando surge um imprevisto.
- Confirme a data de revisão do seu crédito habitação junto do banco — se cair em agosto ou setembro, a nova prestação só chega em outubro, o que dá tempo para ajustar o orçamento com antecedência.
- Compare pelo menos três depósitos a prazo antes de renovar automaticamente o atual, porque a renovação silenciosa costuma ser a opção pior remunerada do banco.
- Todo o dinheiro em depósitos está coberto pelo Fundo de Garantia de Depósitos até 100.000 euros por titular e por instituição — distribuir poupança entre dois bancos, e não um só, aumenta essa proteção sem custo nenhum.
- Peça sempre a simulação por escrito antes de assinar qualquer alteração ao crédito habitação, incluindo alongamentos de prazo, porque o número falado ao telefone raramente coincide com o contrato final.
A reunião do BCE de 9 e 10 de setembro, em Berlim, vai ser o próximo momento a vigiar. Até lá, quem tem crédito habitação ganha ao confirmar a data de revisão com antecedência, e quem tem poupança parada ganha ao mudar de banco antes que as melhores taxas de agosto desapareçam dos anúncios.